BRICS: Presidentes de Comissões de Relações Exteriores Discutem Comércio, Investimento e Finanças
Presidentes de comissões de relações exteriores dos países do BRICS reúnem-se em Brasília para debater comércio, investimento, tecnologia e finanças durante o XI Fórum Parlamentar.

Em Brasília, ocorreu um importante encontro reunindo os presidentes das Comissões de Relações Exteriores dos parlamentos dos países do BRICS. A reunião integrou a agenda do XI Fórum Parlamentar do grupo e teve como foco os eixos de comércio, investimento, transferência tecnológica e instrumentos financeiros voltados ao fortalecimento da cooperação entre os países-membros. O encontro reuniu parlamentares de peso das principais economias emergentes do mundo, em um momento em que o bloco busca consolidar sua influência diante de um cenário econômico global marcado por incertezas comerciais e disputas geopolíticas.
Objetivos centrais do encontro
A pauta principal incluiu três frentes estratégicas. A primeira foi a discussão sobre mecanismos para fortalecer o comércio intrabloco e também entre os membros e outras nações, diante de um cenário global marcado por desaceleração econômica e alta fragmentação. Em seguida, o tema "Promoção de Investimentos e Transferência de Tecnologia para Desenvolvimento Sustentável" também mobilizou o grupo, reunido em uma segunda sessão de trabalho no período da tarde. Por fim, a terceira sessão tratou de "Instrumentos Financeiros para um BRICS mais resiliente e sustentável", com debates que incluíram modelos alternativos de financiamento e apoio conjunto para enfrentar crises futuras. Essas três frentes formam a espinha dorsal da agenda econômica do bloco para os próximos anos e devem orientar decisões tomadas nas próximas cúpulas de líderes.
O que disseram os parlamentares
O senador Nelsinho Trad (PSD-MS), que coordena a Comissão de Relações Exteriores do Senado, ressaltou a urgência de intensificar a cooperação comercial "intrabrics" e "extrabrics" para enfrentar pressões econômicas globais. Já o deputado Wang Ke, vice-presidente da Comissão de Relações Exteriores do Congresso Nacional do Povo da China, destacou que o BRICS é uma peça-chave para a defesa do multilateralismo e a afirmação da voz do Sul Global. Ali AlNuaimi, responsável pela divisão parlamentar dos Emirados Árabes Unidos, afirmou que a ordem global pós-Segunda Guerra não corresponde mais à realidade atual, reforçando a necessidade de construir novas parcerias. O deputado Supra Mahumapelo, da África do Sul, acrescentou que é essencial fomentar um ambiente que estimule negócios, investimentos e capacitação tecnológica no bloco, além de reconhecer o papel crescente do Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS (NBD).
Finanças e alternativas ao dólar
Um dos pontos centrais do debate foi a busca por instrumentos financeiros próprios ao bloco, com destaque às ideias de uso de moedas locais em transações comerciais, reduzindo a dependência do dólar americano. Essa discussão não é nova, mas ganhou fôlego adicional diante da volatilidade cambial observada em diversas economias emergentes nos últimos anos. Os parlamentares também analisaram o papel do Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), criado em 2014, hoje sob liderança de ex-presidentes brasileiras, como mecanismo de apoio para projetos de infraestrutura e desenvolvimento entre as nações membros. O NBD tem ampliado gradualmente sua carteira de empréstimos em moeda local, um dos pilares da estratégia de desdolarização gradual defendida por vários países do grupo.
Contexto do Fórum e ampliação do BRICS
Este encontro dos presidentes de comissões fez parte da 11ª edição do Fórum Parlamentar do BRICS, realizada em Brasília. O fórum também previu sessões paralelas, como as conduzidas por parlamentares mulheres, que trataram de justiça climática e participação feminina na formulação de políticas econômicas. Desde sua criação, o BRICS ampliou-se de cinco para onze membros — incluindo Egito, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Etiópia, Irã e Indonésia —, e cada país traz prioridades distintas, como a busca por reformulação do sistema financeiro global, redução da dependência do dólar e fortalecimento de instrumentos multilaterais. Essa ampliação trouxe também maior complexidade às negociações internas, já que interesses econômicos nem sempre estão alinhados entre os membros mais antigos e os recém-chegados ao bloco.
O papel do BRICS Pay e da arquitetura financeira do bloco
Além do NBD, os parlamentares reforçaram a importância de avançar em iniciativas como o BRICS Pay, sistema de pagamentos que visa se tornar um equivalente ao SWIFT para transações entre os países-membros, reduzindo custos e tempo de liquidação em operações comerciais internacionais. Também foi discutido o fortalecimento da arquitetura financeira do bloco por meio do Acordo Contingente de Reservas, criado como uma rede de proteção para países-membros em momentos de estresse cambial ou de balanço de pagamentos. Ambas as iniciativas são vistas como complementares: enquanto o BRICS Pay facilita transações do dia a dia, o Acordo Contingente de Reservas atua como um colchão de segurança em cenários de crise.
Desafios e perspectivas futuras
Os parlamentares reconheceram que o contexto geopolítico, inclinado a disputas comerciais e instabilidades cambiais, exige urgência na construção de mecanismos de cooperação econômica. A mentalidade unilateral de alguns países foi criticada durante os debates, reforçando a postura do bloco em defesa do multilateralismo como princípio orientador das relações internacionais. Entre os desafios apontados estão as diferenças regulatórias entre os países-membros, a necessidade de infraestrutura tecnológica compatível para sistemas de pagamento integrados e a construção de confiança mútua em um grupo que reúne economias com sistemas políticos e níveis de desenvolvimento muito distintos entre si.
Comércio e investimento entre os países-membros
Além dos instrumentos financeiros, o encontro reservou espaço significativo para discutir barreiras comerciais e formas de facilitar o comércio entre os países do bloco. Parlamentares debateram a simplificação de procedimentos aduaneiros, o reconhecimento mútuo de certificações sanitárias e técnicas, e a criação de corredores logísticos que reduzam o custo de transporte de mercadorias entre economias tão distantes geograficamente quanto Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul. A transferência de tecnologia também apareceu como tema recorrente, com destaque para cooperação em energia renovável, agricultura de precisão e manufatura avançada, áreas em que diferentes membros do bloco já acumulam experiência relevante e podem complementar uns aos outros.
O papel do Brasil na condução do diálogo
Como país-sede da 11ª edição do Fórum Parlamentar do BRICS, o Brasil assumiu papel de destaque na condução dos debates, buscando equilibrar os interesses dos membros fundadores com as demandas dos países que ingressaram mais recentemente no bloco. A diplomacia brasileira tem historicamente defendido uma abordagem gradualista para temas sensíveis, como a desdolarização, priorizando ganhos concretos de eficiência comercial antes de avançar em propostas mais ambiciosas, como uma moeda comum do bloco. Essa postura foi reafirmada pelos parlamentares brasileiros durante as sessões, que defenderam avanços graduais e testados em pequena escala antes de qualquer adoção mais ampla de novos instrumentos financeiros entre os países-membros.
Perguntas frequentes sobre o Fórum Parlamentar do BRICS
O que é o Fórum Parlamentar do BRICS? É um espaço de diálogo entre parlamentares dos países-membros do bloco, criado para discutir temas estratégicos como comércio, investimento, tecnologia e finanças, complementando as decisões tomadas nas cúpulas de chefes de Estado. Quais países fazem parte do BRICS atualmente? O bloco original era formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, e se ampliou para incluir Egito, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Etiópia, Irã e Indonésia. O que é o BRICS Pay? É uma iniciativa de sistema de pagamentos entre os países do bloco, pensada como alternativa a sistemas internacionais tradicionais como o SWIFT, com o objetivo de reduzir custos e a exposição a sanções unilaterais em transações comerciais. Qual é o papel do Novo Banco de Desenvolvimento? Criado em 2014 e sediado em Xangai, o NBD financia projetos de infraestrutura e desenvolvimento sustentável nos países-membros, com uma parcela crescente de empréstimos concedida em moedas locais em vez de dólar.
O calendário de próximas reuniões e a expectativa para a cúpula de líderes
Além do fórum parlamentar, o calendário do BRICS para os próximos meses inclui reuniões técnicas de ministros de finanças e presidentes de bancos centrais, que devem aprofundar tecnicamente as propostas discutidas em Brasília antes de chegarem à mesa dos chefes de Estado na próxima cúpula anual do bloco. Esse processo escalonado, que vai do nível parlamentar ao técnico e, por fim, ao político, é uma característica recorrente da diplomacia do BRICS, que busca construir consenso gradual entre economias com interesses nem sempre alinhados antes de anunciar decisões formais de maior impacto para o sistema financeiro internacional.
Como o bloco pode afetar investidores brasileiros
Para investidores e empresários brasileiros, o avanço das discussões do BRICS sobre comércio e finanças tem implicações práticas que vão além da política externa. Um sistema de pagamentos alternativo, como o BRICS Pay, poderia reduzir custos de conversão cambial para empresas que exportam para China, Índia ou Rússia, hoje dependentes de intermediários financeiros ocidentais para liquidar operações internacionais. Da mesma forma, o fortalecimento do Novo Banco de Desenvolvimento amplia as fontes de financiamento disponíveis para projetos de infraestrutura no Brasil, diversificando a dependência histórica de organismos como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Analistas de mercado acompanham de perto esses desdobramentos, já que mudanças na arquitetura financeira do bloco podem influenciar o fluxo de capital estrangeiro e a taxa de câmbio no médio prazo.
Conclusão: rumo a um bloco mais integrado
Ao final das sessões, os presidentes das comissões ressaltaram a relevância de institucionalizar o diálogo econômico entre os países do BRICS, transformando o fórum parlamentar em um ator regular nas decisões estratégicas do grupo. A próxima etapa será avançar nos temas discutidos, envolvendo governos, setor privado e organismos multilaterais em iniciativas concretas voltadas à desdolarização e à maior autonomia econômica dos países-membros. Com os debates realizados em Brasília, o XI Fórum Parlamentar do BRICS marca mais um passo na construção de um bloco que busca não apenas união política, mas ações integradas em comércio, investimento, tecnologia e finanças, visando reduzir a desigualdade global e reforçar o protagonismo do Sul Global no cenário internacional.